Livro: Em Águas Profundas
Série: Não
Gênero: Suspense
Autora: Patricia Highsmith
Editora: Intrínseca
Páginas: 304
Ano: 2020
Melinda e Victor Van Allen tem um casamento nada convencional. Há pouco mais de três anos Melinda teve seu primeiro amante e desde então Vic viu uma fila de homens entrando e saindo de sua casa. Por toda cidade de Little Wesley, Vic é elogiado por sua paciência e tolerância com a esposa, sendo até chamado de santo por alguns. A verdade é que Vic sempre acreditou que essa "fase" da esposa fosse passar e no momento isso está começando a incomodá-lo. Talvez por isso quando o atual amante de Melinda, Joel Nash, vem conversar com ele, Vic decide inventar uma pequena mentira que vai mudar sua vida para sempre.
Quando interrogado por Joel sobre o quão bem ele aceita essa situação, Vic diz que a coisa não é bem assim e pergunta se ele lembra de Malcolm McRae, um dos ex-amantes da sua esposa que foi assassinado a pouco tempo, e para espanto de Joel, Vic assume a autoria do crime. E Vic gosta tanto da cara de Joel que acaba falando a mesma coisa para outro amante de Melinda. Mas o que pretendia ser apenas um susto nos amantes da esposa, acaba virando uma bola de neve quando a notícia se espalha pela cidade e todos começam a comentar e alguns a acreditar que o cidadão-modelo tenha cometido um crime.
Porém Vic não fica muito preocupado com isso já que Melinda volta a ser a esposa do início do casamento, inclusive novamente dando atenção a filha deles, Trixie. Mas a fase boa não dura muito já que o verdadeiro assassino de Malcolm é preso e Melinda volta a antiga rotina dos amantes. E quando o amante do momento morre afogado em uma festa onde Melinda estava exibindo a nova conquista para todos os amigos do casal, Melinda não hesita em acusar Vic de assassinato. E mesmo fazendo o papel da viúva sofrida, Melinda ainda tem tempo de encontrar outro amante, mas ela nem imagina que as coisas não irão voltar a ser como antes.
O brinde do Clube Intrínsecos de dezembro foi o livro Em Águas Profundas da autora Patricia Highsmith. O livro estava esgotado há décadas nas livrarias brasileiras. Para quem ainda não conhece a autora, como eu antes de receber o livro, seu primeiro romance, Strangers on a Train, publicado em 1950 foi filmado por Alfred Hitchcock. Ela também é a criadora do personagem Tom Ripley, o sofisticado sociopata do filme O talentoso Ripley. Então imaginem as minhas expectativas para a leitura do livro. E não sei se é características de suas obras, mas tanto no filme O talentoso Ripley, que foi meu único contato com alguma coisa da autora, e nesse livro em questão, o protagonista é o vilão e a autora consegue fazer com que o leitor torça por ele.
Num primeiro momento eu fiquei meio assim com essa revelação do assassino logo de cara. Imaginei que fosse ser como nos thriller psicológicos que estou acostumada a ler que fica aquela dúvida durante todo o livro se o protagonista é o assassino ou não, com narradores não confiáveis, fazendo o leitor duvidar do que está lendo. Mas então vi que o objetivo da autora com a história não era esse e sim jogar com o leitor sobre até onde vai o certo e o errado. No caso, Vic é o vilão ou a vitima? É Melinda quem trai, então é ela a errada e seus amantes merecem sua punições? O certo é que você fica em uma saia justa durante toda a leitura e sentindo culpa porque acaba torcendo para que Vic consiga se safar de seus crimes.
A gente fica tão incomodado com a situação, achando Vic um banana por aceitar de boa toda a situação que quando enfim ele reage, sem planejar nada, no calor do momento e na apresentação da oportunidade, a gente sente uma empatia pelo personagem e logo em seguida a culpa por ter ficado feliz com aquilo. E outra coisa que me incomodou mais ainda foi por todo machismo envolvido no assunto. Primeiro pensei, a autora escreveu isso porque foi lá em 1954 quando as coisas ainda eram assim, apesar de que ainda hoje a culpa de tudo é da mulher, até mesmo ser estuprada é culpa dela, por isso ela está apresentando um homem como o doce, gentil, um ótimo pai, e uma mulher como a bêbada que trai o marido com qualquer homem que apareça em sua frente.
Mas não foi tudo com o consentimento dele? Então porque estou julgando e achando certo ele se vingar de algo que ele concordou. E se os papéis estivessem invertidos, será que nossa posição seria a mesma e Melinda seria tão amada e Vic tão odiado pela cidade se fosse ele quem traísse? Então percebi como a autora me manipulou e jogou meu próprio preconceito na minha cara. Um preconceito que existe, por mais que a gente negue, mas que está enraizado lá no fundo e vez ou outra insiste em dar as caras.
E não tem lado certo nessa situação porque os dois estão ali acomodados em uma relação que não existe. Eu tentei entender o motivo de cada um para continuar com esse casamento, mas não consegui. Melinda achei que fosse por causa do dinheiro, mas Vic chega a oferecer o divórcio com uma pensão gorda e ela recusa. Já Vic não quer nada com Melinda, então porque continua fazendo o papel do corno manso? Até parece que eles gostam desse jogo entre eles. Infelizmente para o leitor só faz passar raiva. Mas ainda assim é um bom livro do gênero, com exceção do final que achei muito sem graça para tudo o que ela apresentou até então, por isso não dei nota máxima para o livro. Mas indico para quem gosta de um livro policial que não foca na elucidação do crime.
Nota:



