25 janeiro 2021

Resenha | Em Águas Profundas - Patricia Highsmith

Livro: Em Águas Profundas
Série: Não
Gênero: Suspense 
Autora: Patricia Highsmith
Editora: Intrínseca
Páginas: 304
Ano: 2020

Resenha:

Melinda e Victor Van Allen tem um casamento nada convencional. Há pouco mais de três anos Melinda teve seu primeiro amante e desde então Vic viu uma fila de homens entrando e saindo de sua casa. Por toda cidade de Little Wesley, Vic é elogiado por sua paciência e tolerância com a esposa, sendo até chamado de santo por alguns. A verdade é que Vic sempre acreditou que essa "fase" da esposa fosse passar e no momento isso está começando a incomodá-lo. Talvez por isso quando o atual amante de Melinda, Joel Nash, vem conversar com ele, Vic decide inventar uma pequena mentira que vai mudar sua vida para sempre.

Quando interrogado por Joel sobre o quão bem ele aceita essa situação, Vic diz que a coisa não é bem assim e pergunta se ele lembra de Malcolm McRae, um dos ex-amantes da sua esposa que foi assassinado a pouco tempo, e para espanto de Joel, Vic assume a autoria do crime. E Vic gosta tanto da cara de Joel que acaba falando a mesma coisa para outro amante de Melinda. Mas o que pretendia ser apenas um susto nos amantes da esposa, acaba virando uma bola de neve quando a notícia se espalha pela cidade e todos começam a comentar e alguns a acreditar que o cidadão-modelo tenha cometido um crime. 

Porém Vic não fica muito preocupado com isso já que Melinda volta a ser a esposa do início do casamento, inclusive novamente dando atenção a filha deles, Trixie. Mas a fase boa não dura muito já que o verdadeiro assassino de Malcolm é preso e Melinda volta a antiga rotina dos amantes. E quando o amante do momento morre afogado em uma festa onde Melinda estava exibindo a nova conquista para todos os amigos do casal, Melinda não hesita em acusar Vic de assassinato. E mesmo fazendo o papel da viúva sofrida, Melinda ainda tem tempo de encontrar outro amante, mas ela nem imagina que as coisas não irão voltar a ser como antes. 

O brinde do Clube Intrínsecos de dezembro foi o livro Em Águas Profundas da autora Patricia Highsmith. O livro estava esgotado há décadas nas livrarias brasileiras. Para quem ainda não conhece a autora, como eu antes de receber o livro, seu primeiro romance, Strangers on a Train, publicado em 1950 foi filmado por Alfred Hitchcock. Ela também é a criadora do personagem Tom Ripley, o sofisticado sociopata do filme O talentoso Ripley. Então imaginem as minhas expectativas para a leitura do livro. E não sei se é características de suas obras, mas tanto no filme O talentoso Ripley, que foi meu único contato com alguma coisa da autora, e nesse livro em questão, o protagonista é o vilão e a autora consegue fazer com que o leitor torça por ele.

Num primeiro momento eu fiquei meio assim com essa revelação do assassino logo de cara. Imaginei que fosse ser como nos thriller psicológicos que estou acostumada a ler que fica aquela dúvida durante todo o livro se o protagonista é o assassino ou não, com narradores não confiáveis, fazendo o leitor duvidar do que está lendo. Mas então vi que o objetivo da autora com a história não era esse e sim jogar com o leitor sobre até onde vai o certo e o errado. No caso, Vic é o vilão ou a vitima? É Melinda quem trai, então é ela a errada e seus amantes merecem sua punições? O certo é que você fica em uma saia justa durante toda a leitura e sentindo culpa porque acaba torcendo para que Vic consiga se safar de seus crimes.

A gente fica tão incomodado com a situação, achando Vic um banana por aceitar de boa toda a situação que quando enfim ele reage, sem planejar nada, no calor do momento e na apresentação da oportunidade, a gente sente uma empatia pelo personagem e logo em seguida a culpa por ter ficado feliz com aquilo. E outra coisa que me incomodou mais ainda foi por todo machismo envolvido no assunto. Primeiro pensei, a autora escreveu isso porque foi lá em 1954 quando as coisas ainda eram assim, apesar de que ainda hoje a culpa de tudo é da mulher, até mesmo ser estuprada é culpa dela, por isso ela está apresentando um homem como o doce, gentil, um ótimo pai, e uma mulher como a bêbada que trai o marido com qualquer homem que apareça em sua frente.

Mas não foi tudo com o consentimento dele? Então porque estou julgando e achando certo ele se vingar de algo que ele concordou. E se os papéis estivessem invertidos, será que nossa posição seria a mesma e Melinda seria tão amada e Vic tão odiado pela cidade se fosse ele quem traísse? Então percebi como a autora me manipulou e jogou meu próprio preconceito na minha cara. Um preconceito que existe, por mais que a gente negue, mas que está enraizado lá no fundo e vez ou outra insiste em dar as caras.

E não tem lado certo nessa situação porque os dois estão ali acomodados em uma relação que não existe. Eu tentei entender o motivo de cada um para continuar com esse casamento, mas não consegui. Melinda achei que fosse por causa do dinheiro, mas Vic chega a oferecer o divórcio com uma pensão gorda e ela recusa. Já Vic não quer nada com Melinda, então porque continua fazendo o papel do corno manso? Até parece que eles gostam desse jogo entre eles. Infelizmente para o leitor só faz passar raiva. Mas ainda assim é um bom livro do gênero, com exceção do final que achei muito sem graça para tudo o que ela apresentou até então, por isso não dei nota máxima para o livro. Mas indico para quem gosta de um livro policial que não foca na elucidação do crime.

Nota:








15 comentários:

  1. Olá...
    Adorei sua resenha!
    Ultimamente ando vendo muitos comentários sobre esse livro e estou com ele na minha listinha de desejados. Achei engraçado você chamar Vic de banana e fiquei curiosa para conhecê-lo rsrsrs... Acho que essa questão do machismo também vai me incomodar, mas, quero ler mesmo assim.
    Bjo

    http://coisasdediane.blogspot.com/

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  2. Gente, que casal é esse?! Eu no começo da resenha achei que iria encontrar um thriller também, mas isso foi realmente um tapa na cara. E, pela idade do livro, percebemos que o tapa na cara que a autora deu é atemporal... rs Eu estava me perguntando também o porquê desses dois não se separarem, e minha teoria é que talvez um dependa do outro para continuar fazendo o que está fazendo. O que também é uma relação muito esquisita, olhando assim...
    Gostei desse livro e não posso dizer que gostaria de ler, pois se está esgotado há décadas, acho que nem em sebo eu devo encontrar mais... =/
    Bjks!

    Mundinho da Hanna
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  3. Oi Sil, eu ainda não tive a oportunidade de conferir a obra, mas achei que se causa tanto incômodo e levanta tantas questões deve ser uma leitura ótima. Quero conferir!

    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

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  4. Oi!
    É raro eu ler thrillers e esse não me chamou a atenção quando eu li a sinopse, não sabia nada sobre a autora e achei interessante ela já ter sido adaptada pelo Hitchcock, além da abordagem desse livro em que você vai avaliando como é a índole dos personagens.

    Beijão
    https://deiumjeito.blogspot.com/

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  5. Gostei da capa, muito bonita! Mas não é o tipo de história que seria interessante pra mim, são tantos questionamentos que a leitura deve se tornar cansativa hahaha mas ainda assim me arriscaria só pra poder dar uma opinião sobre o livro hahaha
    Beijoss, Nada Produtiva ♥️♥️♥️

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  6. Oi, Sil! Tudo bom?
    Eu tô muito curiosa com esse livro desde que vi a premissa e o tanto de elogios que recebeu e tem recebido! Essa coisa da autora manipular quem tá lendo, quando bem feito, deixa a gente muito AAAAAAAAA das ideias.
    Vou tentar colocar em alguma TBR próxima!

    Beijos, Nizz.
    www.queriaestarlendo.com.br

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  7. OI.
    Amei saber que logo de cara veio a revelação, j´pa gostei do livro por isso e não tenho que ficar até o final ansiosa para saber quem é hahahahah
    Já quero ler.
    Beijos.


    https://www.parafraseandocomvanessa.com.br/

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  8. Oi, Sil!

    Eita nossa.. que relação doida a desses dois. Ela totalmente infiel, sem um pingo de amor pelo marido, e ele sendo trouxa de concordar com toda a situação. Dá pra ver pela sua resenha como a autora manipula os preconceitos do leitor, mas não sei se eu leria porque achei toda essa premissa já bem doida hahaa

    xx Carol
    https://caverna-literaria.blogspot.com/

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  9. Finalmente alguém fala de algum livro de Patrícia Highsmith. Quando eu era adolescente li um livro dela que tinha o Tom Ripley. Não me lembro mais como era a história, mas lembro que deixei de ler um da Agatha porque preferi o dela. Mas é óbvio que a linha da Agatha não tem nada a ver com a da Patrícia.

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  10. Gente!! Que doida essa história!! Pela resenha, fiquei com raiva dos dois já hehehe. Muito confusa a relação deles, né? E, sem dúvida, se fosse o oposto, acho que ela não seria idolatrada. Interessante refletir sobre essas questões, né? Enfim, apesar de não ler muito o gênero, fiquei curiosa para saber o final. =D

    Beijos, Carol
    www.pequenajornalista.com

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  11. Nossa, eu acho que ia passar muita raiva em algumas partes da narrativa hehehe. Mas, apesar disso, parece ser interessante.

    www.vivendosentimentos.com.br

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  12. sempre que leio bebo chá ou chocolate quente
    http://retromaggie.blogspot.com/

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  13. Oi Sil!
    Parece uma leitura interessante. Já fiquei nesse dilema de mudar minha opinião sobre um personagem somente pelas coisas que a história apresenta. Eu gosto de ficar nesse dilema e fiquei curiosa quanto a leitura.
    Beijos

    Quanto Mais Livros Melhor

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  14. Oi, Sil. Tudo bem? Parece-me um bom livro. Que bom que gostou, apesar das ressalvas. Ótima resenha. Abraço!


    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com/

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